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Resenha: Chica da Silva - Joyce Ribeiro








Em uma narrativa romanceada, a jornalista Joyce Ribeiro conta de forma emocionante a história de Chica da Silva. A trajetória dessa escrava mineira, que foi amante do rico contador de diamantes e desembargador João Fernandes de Oliveira no século XVIII, virou um conto de fadas narrado no cinema, na televisão e na música. Mesmo quem viu o filme ou a novela, vai se surpreender com o livro de Joyce. Fascinada desde criança pelo que Chica representa para a mulher e para a negra, ela fez uma pesquisa meticulosa. Como não está presa ao linguajar e à rigidez de uma historiadora, a autora imagina como foi a vida da personagem. Faz uma narrativa tão rica em detalhes que tudo que parece ser verdade. E pode ter sido mesmo. Joyce captura o leitor logo no primeiro capítulo quando conta como foi a partida de João Fernandes para Portugal, quando tanto ele quanto Chica acreditavam que voltariam a viver juntos. O homem branco e rico acaba morrendo em Portugal, deixando sua amada negra com catorze filhos, dinheiro e posses. Depois de muita luta para ser aceita em uma sociedade escravagista, a poderosa semianalfabeta Chica da Silva, que não baixava a cabeça para ninguém, ganha uma posição de destaque na cidade na cidade de Diamantina, Minas Gerais. Morre dezessete anos depois de seu grande amor e é enterrada no interior da igreja Irmandade de São Francisco de Assis, núcleo exclusivo de brancos abastados. Ao fundir fatos com ficção, Joyce Ribeiro resgata a história de uma das personagens mais populares da história do Brasil.






Nesta releitura de Chica da Silva, escrito pela também jornalista Joyce Ribeiro, publicado pela Editora Planeta, vemos com vários detalhes históricos a colonização do nosso país. A história de Francisca já foi exibido pelo SBT - “Chica da Silva”, em 1996, interpretada por Taís Araújo que foi a primeira atriz negra a ser protagonista de uma telenovela brasileira.

Joyce Ribeiro detalha a vida de Francisca da Silva de Oliveira, Chica da Silva, mostrando como a mesma desde nova cresceu entre a metáfora do campo aberto e da sombria e infecta senzala. Trazendo, além de uma resenha sobre a vida da moça, vários outros fatos e explicações daquela época.

Chica da Silva se passa em uma época onde o mal dos sete dias – tétano - ainda sucumbia muitos recém-nascidos, onde os mesmo já nasciam condenados ao cativeiro e onde o destino de muitos era traçado no navio negreiro.

O livro conta desde o seu nascimento até a liberdade da senzala social, a perda de sua virgindade para o seu senhor que era muito anos mais velho, o descobrimento do amor e do desejo mutuo, os dezesseis anos aprendendo a se movimentar na elite branca, a separação do seu amado por um período e o sofrimento que isso trouxe.

Trata de assuntos como branquear a origem, até o fato de deitar-se com o seu senhor como uma parte das tarefas que cabem à escrava. O paradoxo onde uma negra alforriada é senhora de escravos também aparece no livro. O livro é cheio de fatos históricos que marcaram a metade do século XVIII.

A maneira como a autora Joyce Ribeiro conta a história de Chica da Silva é possível visualizar melhor que Chica não era promíscua como muitos descrevem. Tudo que conquistou foi com muito custo e desde nova já almejava um futuro diferente. Subiu na escala social, mesmo sem o reconhecimento legal, o que não a torna menos digna do status de senhora. Por que com Chica é assim: quando quer alguma coisa é o que tem que acontecer, não o contrário.

Fica bem claro que Chica não dá passo em falso e nem oferece motivos para falatórios -  coisa que já acontecia sem nenhuma base ou razão. Natural que aconteça na boca miúda, é realmente inacreditável como Francisca consegue manter-se com um homem extremante poderoso, em uma época como aquela.

Diferentes das mulheres brancas da época que são livres apenas na origem e pela cor, Chica não fora submissa. Traz a verdade por trás das obrigações das escravas. O sexo depois de um dia inteiro de trabalho árduo também era uma tarefa que deveria ser feita, e a Igreja Católica aceitava. Mostra uma sociedade onde aparentar é tão importante quanto ser.

O vaivém da política, a importância de boas relações e a necessidade de se manter bem relacionado para manter a fortuna também é descrito no livro com êxito. O mesmo possui uma narrativa que te transporta para a época em que os navios “tumbeiros” traziam os negros para o Brasil.

Com parágrafos extensos, o livro traz uma narrativa direta e de fácil entendimento. Possui 192 páginas divididas em oito partes. Possui páginas amareladas. A capa traz a imagem da negra que merecidamente recebeu a alforria.