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Resenha: Confissões de Inverno - Brendan Kiely



Sentia pavor das outras pessoas e de mim mesmo. Estes me reprimiam e me encurralavam, só os meus picos químicos me faziam supera-los e me ajudavam a encarar os dias. Me pergunto se as outras pessoas que vivem no meu arquipélago social se sentem da mesma forma. Toda aquela pompa não era capaz de esconder o vazio e a frieza por traz das máscaras sociais e nem mesmo dentro da igreja, que deveria ser um lugar quente e acolhedor. E pensar que a minha máscara era um disfarce inútil para um garoto machucado, perturbado, maluco e fodido. O padre Greg fazia com que eu não me sentisse mais tão insignificante e sozinho como antes, era como se ele tivesse me dado um sopro de vida, a imagem dele me puxando para perto ainda me aquecia. Antes, buscava a sua ajuda e escutava a sua voz com avidez, esperança e um desejo que chamava de amor... Agora eu tinha uma razão para odiá-lo, tudo que eu havia sentido pelo padre Greg mudou, me sentia, agora, infectado pela doença, e está estava dentro de mim.


Confissões de inverno é o primeiro livro do autor Brendan Kiely, que começou muito bem , diga-se de passagem. Confissões de inverno tem 222 páginas, divididas em 15 capítulos. Algumas páginas trazem uma narrativa bem pesada, que mostra com detalhes o sentimento e a repulsa do personagem principal, no momento que ele percebe que aquilo que o padre faz com ele não é uma demonstração de amor e afeto.

Não vou negar que senti uma certa dificuldade em ler o livro, não por culpa do autor, mas, sim, dos fatos narrados, é uma estória pesada, que retrata a vida de um garoto solitário que sofre abusos sexuais. Demorei um pouco mais que o normal para terminar de lê-lo.

Brendan Kiely compara o personagem principal, Aidan, com Frankenstein. Ele faz isso pelo fato do personagem ser solitário, principalmente por conta dos acontecimentos que ocorreram a ele. Aidan, o personagem principal, sente-se mal dentro da própria casa, onde acredita não existir nada verdadeiro, só aparências. Sua própria mãe não o conhece e nem ele a conhece, é como se ela não se encaixasse na vida do personagem. Quem aparenta receber esse papel é Elena, a empregada da família.

O livro traz também um outro tipo de amor, que não envolve sexo, mas todas as outras coisas importantes entre duas pessoas – a amizade. E através dela começam a descobrir o mundo e o que significava criar um lar. Foi através de Elena que o personagem percebe que havia um buraco dentro dele e que continuava se alargando e perfurando-o, que era causado pelo abandono do pai, os abusos do padre Greg, a dificuldade da mãe de se aproximar e a maneira como as pessoas em que ele confia fingem não ver aquilo que está acontecendo.

Tudo que Aidan mais queria era reescrever a própria história, cair fora sem olhar pra trás igual o seu pai fez. Talvez, tudo desaparecesse, se ele não falasse mais do padre Greg, talvez a sensação de inevitabilidade, a sensação de estar sendo guiado escada abaixo para a escuridão mais profunda de um lugar sobre o qual não se tinha nenhum controle, sumisse. Parar de falar nisso. Enterrar o assunto. Talvez se você conseguisse enterrá-lo fundo o suficiente, não vai nem conseguir mais pensar nele. É isso que as pessoas fazem quando querem esquecer alguma coisa. Mas e se não der certo?